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Pré-inspeção: porque...

Pré-inspeção: porque...

Marcio de Andrade Nogueira
Perito Marítimo


Muitos gestores preferem avaliar custo X benefício pelo ângulo da economicidade: se custa menos, é preferível. Ocorre que, às vezes, essa visão simplista nem sempre traz a melhor solução para problemas mais complexos, como é o caso do grau de prontidão que uma embarcação precisa ter para realizar todas as tarefas a ela designadas. O Grau de Prontidão é um atributo nem sempre valorizado pelas pessoas quando se trata de avaliar embarcações com a vida útil já comprometida pelos anos de uso. É exatamente nesse momento que a economia pode vir de um “gasto a mais”.

Não faz algum tempo, fui fazer pré-inspeção em uma embarcação. Não darei detalhes por questão de ética, mas o fato é verídico e demonstra o quanto essa atividade pode contribuir para evitar custos não previstos, bem como garantir o sucesso no emprego de embarcações mesmo já desgastadas pelo tempo. Estávamos em dupla: eu faria Pré-inspeção de PSC1 e o meu parceiro a Pré-inspeção de Helideque e EPTA, que prepara o setor de Operação de Aeronaves e verifica se a parte das Comunicações atende aos requisitos exigidos para operar helicópteros no Brasil. Instalados nos camarotes, banho tomado, fomos jantar e, logo em seguida, Reunião com o Capitão.

O ar de desagrado do Capitão era notório: nem o tradicional “bem-vindos a bordo” nós recebemos. Feitas as apresentações (estavam presentes: o Capitão, Segundo, o Mestre, um Oficial de Máquinas e nós dois), eu e meu parceiro descrevemos em breves linhas o que tínhamos vindo fazer a bordo. Veio, então a primeira grande surpresa! O Capitão nos perguntou: “E como os senhores pretendem fazer isso?” e continuou descrevendo a situação. A embarcação estava saindo de Laid-up2, o que significa dizer que não estava em condições de operar qualquer equipamento. Só então entendi algo que chamou minha atenção no dia da chegada: o barulho de um motor diesel funcionando no cais era um diesel-gerador!!! Eles ainda não tinham nem energia elétrica!

Logo na chegada, tinha dado a perceber que algo de estranho estava acontecendo... O grau de “desarrumação” era notório; muita coisa espalhada pelos conveses, mas não havia aquele ar de embarcação em reparos; afinal, não se viam equipamentos desmontados, em manutenção, embora houvesse coisas encaixotadas ou empilhadas em diversos lugares. Conclusão? A famosa “primeira impressão” não poderia ter sido pior.

Considerando que “o que não tem remédio, remediado está” (como dizia minha avó), ajustamos nossas prioridades e demos início à “pré-inspeção”. Para isso, estabelecemos como parâmetro inicial que passaríamos a informar todos os testes e verificações que deveriam ser feitas, descrevendo em detalhes como a Autoridade Marítima Brasileira – AMB iria verificar as condições da embarcação.

Dessa forma, o que deveria ser um conjunto de verificações, passou a ser a divulgação de instruções detalhadas de como cada coisa deveria funcionar e o que cada um deveria fazer. Ocorre que diversas ações e/ou atividades têm peculiaridades que a norma internacional não especifica ou que embarcações de bandeiras diferentes possuem normas próprias que, no caso em questão, deveriam ser adaptadas ao padrão brasileiro. Afinal, a embarcação seria internalizada mesmo que temporariamente: ela “entraria em AIT”3.

Ao final de cinco dias, prazo estabelecido por contrato para a pré-inspeção, o clima de trabalho entre as duas equipes era totalmente diferente do que havia se estabelecido inicialmente. A busca por soluções brasileiras para todas as atividades da embarcação gerou a resposta contida no título desse texto: “porque sem ela, tudo pode acontecer".

O que teria ocorrido caso a embarcação tivesse cumprido seu processo de ‘revitalização’, feito os reparos necessários, se equipado e viajado para o Brasil? O esforço para que a nova tripulação pudesse adaptar-se dentro do prazo foi recompensado pela certeza de que agora tudo estava em condições de alcançar sucesso. Até mesmo o Relatório de Pré-inspeção precisou ser adaptado para atender à nova realidade: diversas orientações e sugestões foram introduzidas em face do aprendizado alcançado

1 Trata-se da Inspeção de Controle do Estado do Porto (Port State Control), realizada em navios estrangeiros por representantes da Autoridade Marítima nos portos. Ela ocorre quando a bandeira da embarcação não é a mesma do porto visitado.
2 Laid-up é o termo empregado para embarcações fora de serviço.
3 Termo empregado para referir-se a embarcações que possuem o Atestado de Inscrição Temporária – AIT.
diversas orientações e sugestões foram introduzidas em face do aprendizado alcançado.